
Morumbi, estádio com 50 mil são-paulinos e apenas um palmeirense na arquibancada, um velhinho solitário vestindo sua camisa do Palmeiras, surrada pelo tempo mas muito limpa, como sua honestidade. Sozinho, ele joga os papéis picados na entrada do esquadrão do Palmeiras, relembrando que estava lá no Pacaembu naquele jogo de 1942. Suas memórias resgatam a bandeira brasileira carregada pelo time que ama, da vitória, do título, do quanto ele se orgulhava por torcer para aquele time com raízes italianas (sim, nobres não renegam seu passado), mas demonstrava seu caráter ao estabelecer que o vínculo com a Itália era de amor, e não de guerra. Sentia vergonha do que os comandantes italianos faziam naquele momento, e mais do que isto, era brasileiro por opção, ainda que nascido na Itália.Sua aposentadoria, dilacerada pelo tempo, não lhe permitia ver muitos jogos. Mas qualquer jogo contra o inimigo que quis lhe roubar o que lhe era mais caro no futebol valia o esforço, o sacrifício. Contemporâneo de Oberdan, não tem forças para gritar pelo seu time querido, como outrora. Mas a voz que sai do coração é ensudercedora.Ele não está sozinho, sente a energia de velhos amigos que já deixaram esta vida, amigos que estavam com ele no Pacaembu e que foram testemunhas do que o inimigo tentou, mas não conseguiu.
O jogo começa, e o esquadrão verde mostra 11 guerreiros que não se amendrontam contra aqueles que se julgam fabulosos. A jovem torcida que ofende os esmeraldinos, oferece a mesma ira contra o senhor sozinho de verde, naquela arquibancada. A cada lance perigoso a favor do Palmeiras, o velhinho levanta as mãos e fecha o punho, querendo estar ele ali dentro do campo, mas sabe que seu tempo está acabando. Não sente mágoa, não sente inveja dos jovens ali do outro lado, de branco. Ao contrário, sente tristeza deles não saberem a história de vida, de amor, de luta e de coragem que aquele time de verde apresenta. O jogo é duro, perde-se aqui, ganha-se ali. Mas o jogo transcorre equilibrado. Os soldados não abaixam a cabeça para os adversários. Não existe vergonha na nossa história, pensa o sábio ancião.Gol do time branco. O estádio vira uma festa, e os jovens zombam do velhinho, gritam que a história tem novo líder, tem novo campeão. Os jogadores de verde sentem o impacto negativo do gol. Procuram nas arquibancadas o grito de "OLE PORCO", mas encontram ali, no meio da arquibancada e sozinho, um senhor de verde. Todos, como que atraídos por um imã, olham para o velhinho. E o velho olha para eles.Como numa cena em câmera lenta, todos acompanham esta troca de olhares e ficam mudos. O estádio silencia.Segundos depois, o velho soldado do tempo levanta-se e abraça a própria camisa, bate com a mão espalmada no peito e grita, dentro do próprio limite que o corpo lhe impõe: "Palmeiras, Palestra". Ainda assim é ouvido. E joga mais papel picado para o alto.Os jogadores, contagiados pela esperança e pelo que viram, se abraçam e reúnem-se ali perto da grande área. A cena é simples, mas com uma emoção nunca vista pela torcida adversária. Os jogadores gritam "Palmeiras, Palmeiras, Palmeiras". Levantam a cabeça. E vão para o jogo.
Somos a Academia, pensam os esmeraldinos. E lutam. A torcida adversária e o outro elenco, mais uma vez, perdem a confiança. E o velhinho não se senta mais, precisa acompanhar os 20 minutos finais em pé, estar junto mais uma vez daquele time que outrora chamou-se Palestra Itália. Seu nome agora é Palmeiras, mas sua força nunca mudou. Cinco minutos depois, empate. Mais uma chuva de papel picado. Como pode um velho sozinho ser mais forte que uma massa de tricolores ? Confiança. Nobreza. Caráter. Fé.O jogo se aproxima do final, e o inimaginavel para a maioria do estádio acontece. Mais um gol do Palmeiras, que vence a partida por 2x1. Os jogadores vão em direção do velhinho, cumprimentam, batem palmas para ele e gritam: a vitoria é para o senhor !O velhinho não se aguenta de emoção. Recolhe os papéis picados ali do chão para jogá-los novamente em homenagem ao seu time. Humilde, agradece em oração cada um dos combatentes de verde, e agradece a Deus pela oportunidade de participar, mais uma vez, da história do seu Palmeiras. Como em 1942.
Missão Cumprida...
Parabéns a todos os soldados guerreiros desta nação chamada PALMEIRAS

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